As vidas que acabaram no "inferno de Dante"

Histórias de pessoas comuns feitas vítimas e heróis nos atentados da última sexta-feira, que tiveram o Bataclan como principal palco
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"Monsieur, ajude-me, ajude-me, estou grávida", gritava uma mulher pendurada numa janela a cerca de 15 metros de altura. Na rua, vê-se uma mancha de sangue no chão e pessoas a correr. Ainda se ouvem os tiros disparados pelos três terroristas que, dentro da sala de espetáculos parisiense Bataclan, interromperam o concerto dos Eagles of Death Metal para levar a cabo o massacre que tirou a vida a 89 pessoas, na última sexta-feira. No final da noite, a polícia e a brigada de intervenção francesas descreviam o cenário como "o inferno de Dante", citava o Le Monde.

Do mesmo modo que hoje dizemos "11 de setembro", começa agora a ouvir-se a expressão "13 de novembro", prenúncio da memória futura daquele dia em que morreram 129 pessoas, 117 das quais já foram identificadas, e de que se contavam na noite passada ainda 352 feridos. O Bataclan tornou-se no ponto mais mortífero dos seis ataques que nessa noite tomaram a capital francesa.

A identidade da mulher grávida do vídeo que o repórter do jornal Le Monde, Daniel Psenny, filmou de uma janela com o seu telemóvel, ainda não é conhecida. A certa altura, vê-se o homem interpelado pelo pedido de ajuda surgir na janela e puxá-la para o interior do edifício onde o massacre decorria. Ambos sobreviveram. Sabemo-lo pelo apelo que, no domingo, apareceu na conta de um amigo da mulher no Twitter, procurando pelo homem que a salvou, "apenas para lhe dizer "Obrigada"".

Sabe-se, pela mesma conta, que a "mulher grávida está bem e reencontrou o seu salvador", que segundo a imprensa francesa responde pelo nome de "Sébastien". No entanto, nem todos saíram da noite de 13 de novembro com vida.

Mães e pais de alguém

Os nomes são muitos, e as suas histórias têm sido contadas nas redes sociais e na imprensa internacional. Mais de uma centena de homens e mulheres, adolescentes e adultos, que eram mães, pais ou companheiros de alguém, que eram cabeleireiros, produtores, jornalistas, estudantes, professores.

Nomes como o de Helène Muyal-Leiris, mãe de Melvil, de 17 meses, que morreu no Bataclan aos 35 anos. Antoine Leiris, o seu marido, escreveu uma carta aos terroristas responsáveis pelo ataque. Publicada no Facebook, já foi partilhada mais de 95 mil vezes. "Não vos oferecerei o presente de vos odiar. (...) E toda a sua vida este pequeno rapaz [o filho] fará a afronta de ser feliz e livre. Porque não, vocês também não terão o seu ódio", lê-se na carta.

Yannick Minvielle é outro desses nomes. Saltou para a frente da namorada quando um dos terroristas se preparava para disparar. Ao salvá-la, morreu com um tiro na cabeça. Tinha 40 anos, era diretor criativo e trabalhava em publicidade. Deixou um filho de sete anos, Misha, e a namorada, que sobreviveu. "Ela está traumatizada. Está viva por causa dele. É algo que a vai perseguir para sempre", comentou um amigo ao jornal The Independent.

Juventude atacada

Elodie Breuil tinha 23 anos e estudava design. Esteve nas manifestações de janeiro onde, depois dos atentados à redação do Charlie Hebdo, também em Paris, muitos saíram à rua clamando que não tinham medo. Acabou por morrer menos de um ano depois pelas mãos do estado islâmico, que reivindicou os ataques de então como os de agora. Um amigo de Elodie, que estaria próximo dela no concerto quando o ataque começou, contou à revista Time ter ouvido um dos atacantes dizer que a culpa do que estava a acontecer era de François Hollande "por tudo o que está a acontecer na Síria".

Como Elodie, e muitos outros jovens que habitualmente frequentam os 10.º e 11.º bairros de Paris onde decorreram os ataques, conhecidos pelo seu cariz burguês e progressista, a par da sua heterogeneidade étnica e social, Marie Lausch, de 23 anos, e Mathias Dymarski, de 22 anos, estavam no Bataclan. Namoravam desde a adolescência, havia cinco anos, e acabaram por morrer juntos. Naturais de Metz, mudaram-se para a capital francesa em setembro. Em homenagem, os amigos ergueram uma pirâmide de bicicletas BMX e skates, as paixões de Mathias.

Vítimas dos jihadistas

As irmãs Halima, de 37 anos, e Hodda Saadi, de 35, morreram na esplanada do bar La Belle Équipe, um dos seis alvos dos atentados. O pai e os dois irmãos pertencem à comunidade muçulmana de Creusot, comuna do centro do país. Abdallah, um dos irmãos, expressou a sua revolta ao jornal Le Parisien: "Estes jihadistas não representam a religião muçulmana." Diria ainda não querer que o "associem a essa gente". Halima era mãe de duas crianças de três e seis anos.

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